Eu estive muitas vezes em Paris durante essa minha estadia aqui, mas desconfio que a Paris que eu conheço melhor não é a Paris dos sonhos da maioria das pessoas (e dos meus tbm).
Eu só tive um dia típicamente turístico em Paris, no primeiro dia que eu cheguei aqui, quando eu mal tinha descido do avião e já fui submetida ao combo Sacre-Coeur-Torre Eiffel-Louvre no mesmo dia! Mas mesmo assim, foi um dia turístico do tipo mochilão, com grana contada, comendo pizza da promoção e tal. Nada do glamour de assentar em um café, cercada de patisseries e ver a vida passar.
Depois disso, as minhas visitas a Paris acabaram sempre passando pelo olhar de quem vive nela como estudante, sujeito aos perrengues que lhes são peculiares, e não pelo olhar do turista maravilhado que flana pelas ruas, monumentos, museus, quase flutuando e que depois escrevem textos apaixonados declarando seu amor pela cidade e jurando um dia voltar pra ficar.
Não me entendam mal. A Paris do mochileiro, a Paris dos estudantes, a Paris do perrengue, continua sendo linda! E mesmo vendo por trás desses olhares, eu visitei alguns dos ditos "pontos turísticos" e achei tudo deslumbrante. Mas essa Paris não te faz flutuar. É uma Paris mais de realidade e menos de sonho. É a Paris onde seu dinheiro encolhe. Onde as vitrines e os menus dos resturantes são só para olhar. É a Paris que acorda ainda no escuro pra sair pra vida. É a Paris que é muito mais negra do que branca. Que tem mais cheiro de kebab do que de baguete. Que se parece mais com a Avenida Paraná do que com a Praça da Liberdade. Que tem gente dormindo na rua. É a Paris onde coisas como essa acontecem (eu já vi acontecer algo do tipo mais de uma vez...). É a Paris de verdade. Continua linda, como eu acredito poucos lugares no mundo devem ser. Continua muito rica, diversa. Até mais, eu acho. Cada minuto passado nela continua valendo uma aula de história.
Mas eu duvido que seja essa a Paris que os turistas esperam encontrar. Acredito até que muita gente passa por ela sem se dar conta de que ela existe. Eu mesma ás vezes custo a acreditar no que eu vejo. Mas Paris é esta. É a bomba relógio que já me falaram que explodirá no segundo em que seus reais habitantes, vindos das periferias, das minorias, resolverem se rebelar numa 2a Revolução Francesa. E isso é muito pouco falado. Ninguém tinha me contado que era assim! É como a guerra do Congo e o massacre de Ruanda que nem chegam direito no Jornal Nacional, e que eu tbm não sabia da gravidade. Me deixa preocupada o tanto de coisa que acontece de verdade no mundo e que eu não sei.
Eu amo essa Paris real, com tudo de bom e de ruim que ela tem. Mas vou confessar que, com a chegada dos meus pais e da minha madrinha (sim, eles vêm me visitar semana que vem!!!), e com eles a possibilidade de viver um pouco essa Paris turística, de se assentar em cafés, de flutuar, está sendo um sonho pra mim. Finalmente vou conhecer a Paris que eu queria! Mesmo sabendo que ela é um pouco de mentirinha...
terça-feira, 18 de novembro de 2008
O outro lado de Paris
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
A saída da piscina
E aí vem o medo. Sim, dá medo de voltar. Muito medo! Minha mãe fica em pânico, achando que eu não gosto mais do Brasil, que eu tô pensando em passar o resto da minha vida aqui e coisa e tal, mas não é nada disso. Claro, óbvio, evidente que eu quero voltar. Não passou, nem por um minuto, na minha cabeça de ficar aqui mais tempo do que o necessário.
Mas o caso é o seguinte... Essa coisa de ir morar fora é como pular numa piscina gelada (já até usei essa analogia aqui, mas acho que foi com um rio... sei lá, não achei). Quando vc tá na beiradinha, prestes a pular na piscina, tem aquela adrenalina toda, pq vc SABE que vai estar frio. A antecipação é um sofrimento só. Aí vc pula. Durante 10 segundos, vc estremilica de frio e pensa que vc não vai dar conta. Mas aí vc acostuma. Pára de sentir frio e até se diverte na piscina. Só que chega uma hora que vc tem que sair. Chega uma hora que vc QUER sair. Só que vc ficou um tempão lá dentro da piscina, e do lado de fora começa a esfriar. Vc sabe que tem um roupão felpudo e um chuveiro quentinho te esperando lá fora e que o almoço já vai até pra mesa. Não está mais excelente dentro da piscina, mas vc sabe que pra chegar no roupão e no chuveiro, vc vai ter que sair da piscina e aguentar um ventinho frio. Aí dá um pouquinho da mesma sensação que vc teve antes de pular.
Acho que é isso... A gente acostuma com a piscina fria e por um segundo pode parecer que do lado de fora está mais frio do que dentro. Mas vc sabe que é questão de segundos de frio e vc já vai vestir o seu roupão felpudo quentinho e aconchegante novamente.

Imagem daqui.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Encaixotando pessoas
Logo depois da enxurrada de posts sobre a vitória do Obama na maioria dos blogs que eu costumo acompanhar, veio uma outra enxurrada de posts sobre um outro assunto, mas dessa vez a enxurrada foi de água fria. Todo mundo começou a falar da tal proposição 8 que foi aprovada na Califórnia, que diz que apenas a união entre homem e mulher será reconhecida pelo estado, tirando assim os direitos de milhares de casais gays que desfrutam de uma união estável. Um retrocesso paradoxal no meio da euforia do advento do progresso. Mas não parou por aí a notícia. Pior do que essa vitória homofóbica nojenta foi a constatação de que o voto do eleitorado negro foi fundamental para ela. Pior: 75% das mulheres negras votaram para a aprovação do absurdo. E o povo ficou chocado, triste, arrasado por constatar este fato.
E aí que eu fiquei incomodada. Mas não foi só pela notícia da aprovação em si. Alguma coisa me causava estranheza nessa notícia. Na forma como ela foi colocada. Na hora em que ela vazou internet afora. E eu custei pra entender exatamente o quê estava me encafifando. Mas aí eu tive um momento de iluminação pessoal que encaixou vários fios soltos de pensamento que já estavam boiando no meu cérebro a algum tempo. Se vc tem preguiça de post grande e mais ainda de devaneios, pode parar por aqui que eu deixo, sem ficar magoada. Mas agora eu vou falar! Vou tentar ser o mais organizada possível com meus pensamentos, mas não tô prometendo nada!
1° de tudo, me incomodou, logo depois do mundo estar eufórico com a eleição de um negro para presidente da maior potência mundial (o que foi uma coisa MUITO importante), que se espalhe uma notícia que manda uma mensagem (nem tanto) subliminar de que os negros foram culpados por ajudar a estabelecer uma medida retrógrada. Mais do que isso, as mulheres negras foram o carrasco da situação. É como se quisessem dizer: "Tá todo mundo aí felizinho com o negão, achando que ele vai mudar o mundo, né? Mas não é assim não! Espia só o que os amiguinhos e principalmente as amiguinhas dele tão fazendo na Califórnia!". Sei lá se eu estou sendo paranóica e conspirativa, mas achei estranho.
Num segundo momento, eu fiquei meio surpresa com a surpresa das pessoas que deram a notícia. Tava todo mundo boquiaberto de tantos negros terem votado a favor da emenda. E por que? Por que por eles serem uma minoria discriminada quer dizer que TODOS eles são bonzinhos e esclarecidos e éticos e se compadecem e lutam por todas as outras minorias? Quer dizer então que tbm não existe gay com preconceito racial? Eu acho racismo e qualquer outra forma de preconceito uma coisa nojenta e completamente burra, mas, pra mim, idiota tem de tudo quanto é cor, forma e opção de vida! Acho que cor de pele ou opção sexual não desqualifica caráter de ninguém, mas tbm não qualifica automaticamente! Seja a pessoa branca, negra, laranja ou lilás, goste ela de meninos, meninas, animais, árvores ou pedras! Simplesmente uma coisa não tem nada a ver com a outra! Se não se esperava essa votação dos negros, quer dizer que se esperava essa votação dos brancos? Quer dizer então que se a maioria dos brancos tivessem votado a favor dessa emenda (na verdade, 51% dos brancos votaram contra) estaria tudo normal, o mundo estaria girando pro lado certo e ninguém iria se indignar? Eu acho que a indignação tem que ser dessa emenda ter sido aprovada at all. Sejam as pessoas que votaram a favor dela brancas, negras, laranjas ou liláses, pra mim são todas estúpidas!
Eu faço parte da dita elite branca heterossexual do mundo, e em muitas situações eu fico me sentindo a personificação do mal, a própria encarnação do capeta por causa disso. Ainda bem que eu sou mulher e tenho pelo menos uma minoriazinha pra chamar de minha. Mas se eu fosse homem, aí eu tava fulminada! Por que aí eu representaria o fenótipo exato da maioria dos responsáveis por atos cruéis e burros de preconceito. Mas se eu fosse um homem branco, rico e heterossexual isso faria de mim uma pessoa automaticamente ruim? Eu acho que o fato de ser branca não me faz melhor do que ninguém, mas também não me faz pior e eu não sou obrigada a carregar a culpa do mundo por causa disso. O que me faz melhor ou pior são as atitudes que eu tomo, o jeito que eu trato as pessoas, o meu caráter.
O problema é que a gente encaixota as pessoas segundo critérios completamente arbitrários e espera que elas possam ser completamente definidas, explicadas e escolhidas por esses critérios únicos. Por exemplo, o Obama é negro. Isso é parte dele, mas isso não DEFINE ele e tem muito pouco a ver com a competência que ele tenha ou não de governar. Ou alguém por acaso acha que a competência (ou falta de) do Lula na presidência tem a ver com o dedo a menos que ele tem ou com a lingua presa? O fato do Obama ser negro e ter sido eleito é MUITO importante, porque mostra que as barreiras do preconceito estão começando a cair e essa burrice toda sem sentido que martirizou os negros por tanto tempo está começando a ser descartada. Mas o fato puro e simples dele ser negro, pra mim, não é um motivo pra votar nele. E nem pra deixar de votar. Se ele fosse negro e um completo BOLHA, eu não votaria nele. Eu votaria nele porque ele é inteligente, dinâmico, esclarecido e outras características que são IMPORTANTES para a escolha de um presidente. Cor de pele não é importante pra escolha de presidente. Eu voto nele porque, nesse assunto polêmico de casamento gay, ele falou tudo! Ele disse que casamento é casamento. É sacramento ligado a crença pessoal de cada um, então cada um que se entenda com sua Igreja, que por sua vez não tem nada a ver com o Estado. Mas união civil é união civil e aí assim é assunto pra lei! E para dois cidadãos fazerem um acordo de uma vida comum, garantindo direitos de ambas as partes e tendo isso garantido e assegurado por lei, pouco importa que eles sejam heterossexuais, homossexuais ou panssexuais. Basta que eles sejam cidadãos. E tem cidadãos nos caixotes dos heterossexuais e dos homossexuais.
Depois de tudo isso e várias outras coisas terem passado como um tufão pela minha cabeça, uma terceira coisa me indignou nessa notícia: Quem que fez essa pesquisa de cor das pessoas que votam? PARA QUÊ foi feita essa pesquisa? Já não foi mais do que cientificamente provado que NÃO EXISTE essa questão de raça? O que que isso tem a ver com a cidadania da pessoa?Eu acho que enquanto esse encaixotamento de gente continuar existindo e para as coisas onde nada disso é importante vc tiver que escolher um caixote branco ou negro, hetero ou homo, mulher ou homem pra pular dentro e ter que ser definido, mesmo que temporariamente por isso, nós estamos longe de vencer os preconceitos que ainda existem nesse mundo! Eu acho que eu sou um INDIVÍDUO, sou muito mais do que uma mulher branca e heterossexual! Eu acho que esse encaixotamento devia parar. OU então, se tiver mesmo que encaixotar, que arrumem mais caixotes! Que se o negócio é definir, vamos então definir direito! Vamos colocar o genoma inteiro de cada um, todas as características da pessoa, e depois cruzar os dados pra ver o que que dá! Aí talvez faça algum sentido. Quantas pessoas narigudas votaram contra a proposição 8? Alguém mediu quantas pessoas que tem o segundo dedo pé maior do que o dedão votaram a favor? Vai ver que 100%, e que são elas as verdadeiras culpadas da aprovação. Vai saber!
Pelo não encaixotamento de pessoas!P.S2: Minha formação acadêmica é em Ciências Biológicas. Não entendo lhufas de humanas. Tudo que eu falei saiu de dentro da minha cabeça, e se teve alguma besteira gigantesca, um despropósito qualquer, uma heresia, por favor me ensinem e me expliquem o certo. Por que eu juro que o sentido disso tudo tá me escapando.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Egoísmo
A alguns dias atrás, os líderes da zona Euro se reuniram pra discutir as medidas a serem tomadas diante da crise. Sarkoza vai liberar 360 milhões de euros do estado pra suprir os empréstimos interbancários e eventuais recapitalizações.
Ontem, a bolsa de Paris já fechou na maior alta dos últimos 20 anos. E em toda Europa, foi um dia de alta tbm.
Pra falar a verdade pra vocês, eu tava torcendo mesmo é pro euro chegar á 5 reais, pq aí eu ia parar até de comer, guardar todo o dinheiro que ainda me resta e ser milionária quando eu voltar pro Brasil. Mas aí seria muito egoísmo da minha parte...
O dinheiro tem que ir é pros bancos mesmo, não pra mim. Alimentar o cão raivoso fantasma que é esse tal de mercado, pra manter a dita "ordem"! Pro mundo continuar rodando pro mesmo lado que tá combinado. Ás vezes eu penso que ele podia rodar um pouquinho mais pro lado de cá, mas aí eu estaria sendo muito egoísta, não é mesmo?
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Eu quero um Nobel!

De todos os prêmios que existem no mundo: Oscar, Grammy, Emmy, medalhas olímpicas, miss mundo e etc, o que eu mais queria ganhar era um prêmio Nobel. De química ou de medicina. Mais de química, pq eu tenho que honrar a minha birra bióloga contra os médicos. Mas não ia achar ruim de ganhar o de medicina não, pq afinal de contas na maioria das vezes os assuntos que ganham o prêmio são bem mais de pesquisa do que de prática médica.
Esse ano, foram dois franceses que ganharam o de medicina. Luc Montaigner e Françoise Barré-Sinoussi foram laureados pela descoberta e caracterização do vírus HIV. A francesada ficou toda feliz, pq tinha 20 anos que eles não ganhavam um Nobel de ciência e já estavam começando a ficar procupados. Imagina nós brasileiros então, que nunca ganhamos nenhum! É pra preocupar demais!
Ganhar um Nobel, principalmente de Ciência, é uma coisa ainda muito distante da nossa realidade. E aqui na França, é uma realidade ali na esquina. Inclusive tem um cara aqui do laboratório que conhece os dois ganhadores! E falou que eles nem são grandes coisas assim... Diz que a mulher é melhorzinha, mas o cara é bem mediano. Fiquei passada com o comentário! E aí eu lembrei de uma polêmica nesse assunto, que deve voltar com tudo agora!
(Pausa para o momento "A maravilhosa e conturbada história da ciência")
Antes, eu peço desculpas se eu cometer algum equívoco horrendo, pq eu não lembro de todos os detalhes e já escutei versões diferentes, mas o caso da descoberta do HIV que eu acho mais verossímil na minha opinião humilde é mais ou menos o seguinte.
Tinha essa duplinha de franceses que começaram a estudar um povo que tava morrendo de imunodeficiência e toparam com o HIV nos exames que eles fizeram nesses pacientes. O HIV é um retrovírus, ou seja, é um tipo de vírus que ao invés de ter DNA como material genético tem uma molécula de RNA. Os retrovírus ainda não eram muito conhecidos, e os franceses não manjavam lhufas disso.
Mas tinha uma americano, Robert Gallo, que era especialista no assunto. Os franceses não estavam botando muita fé que HIV era o agente causador da imunodeficiência, mas resolveram mandar uma amostra do vírus pro Dr.Gallo pra ver o que ele achava (alguns dizem que na verdade os franceses não mandaram nada e que a amostra de HIV foi parar nas mãos do americano por vias um pouco obscuras). Gallo estudou o retrovirus e foi o primeiro a levantar a bandeira de que realmente o HIV era o agente causador da AIDS e logo desenvolveu um teste diagnóstico pra isso. Os franceses chegaram á mesma conclusão um pouco mais tarde, mas não quiseram implementar o teste diagnóstico americano (birra ou precaução?), e desenvolveram o seu próprio teste 6 meses depois.
Isso já denotou o início da briga sobre quem deveria ser o grande responsável pela descoberta do HIV, que se arrastou por um bom tempo e terminou pelo reconhecimento diplomático pela comunidade científica dos dois grupos como tendo sua importância nessa pesquisa. Claro que há a divisão "Team Gallo" e "Team Montaigner". A primeira vez que eu escutei essa história foi na faculdade, vindo de um prof do "Team Montaigner". Ele falava que era claro, óbvio, evidente que o Gallo era um aproveitador. Quase a encarnação do capeta, como a maioria dos americanos, e que só queria levar vantagem em cima da descoberta do grande Montaigner. Já o cara do meu laboratório, que falou que o Montaigner era bem marromeno, acha que foi o Gallo que fez tudo! O Montaigner só teve a sorte de achar o vírus antes, mas que ele nem sabia o que fazer com a descoberta, se não fosse o grande Gallo. Ele (o cara do meu lab) inclusive fez questão de mandar um email pro Gallo, expressando a sua indignação com a decisão do Nobel (A pessoa tem amigos Nobel e pseudo-Nobel!!! Se eu não ganhar um, pelo menos algum amigo meu podia ganhar! Vamo agilizar isso aí, gente!)
Apesar dos times, a poeira já estava baixa. Mas aí o Nobel vem e deixa o Gallo de fora! O Nobel pode ser dividido por no máximo três pessoas, então dava pra manter a diplomacia e premiar Montaigner, Gallo e a mulher (que e primeira autora do artigo onde a descoberta do HIV foi publicada, mas não tenho nem idéia do que ela fez!). Mas eles escolheram como 3o ganhador um cara que trabalha com papilomavirus (câncer de colo de útero), que é super importante também, mas nada a ver com o assunto! Foi pra ficar bem ostensivo que eles estavam deixando o Gallo de fora MESMO! Ou seja, a polêmica vai voltar com força!
(Fim do momento "A maravilhosa e conturbada história da ciência")
Mesmo com polêmicas, eu queria um Nobel! E sei que tá muito longe pra mim, pra não dizer que é impossível. Isso porque uma coisa que todos os Nóbeis (?!), mais ou menos merecedores do prêmio, tem em comum é que, mesmo sendo marromeno, eles vivem pra ciência. Ela vem em primeiro lugar sempre. Antes de amigos, família, diversão ou qualquer outra coisa. Pra ciência, isso é necessário. Essa dedicação contínua, absuluta e obsessiva.
Eu aprendi num seriado (que tbm é cultura!) uma imagem que eu achei legal: um prato de presunto com ovos, o porco e a galinha. A galinha está sem dúvida envolvida com o prato, uma vez que ela produziu e doou os seus ovos, frutos do esforço dela. Mas o porco, coitado, ele está verdadeiramente comprometido com o prato. É ele ali, é a vida dele que ele teve que colocar pro prato acontecer. Quem ganha prêmio Nobel é porco. Eu sou galinha (no sentido da metáfora, por favor!). Tô longe de ser porco e nem sei se eu quero ser porco. Eu sou feliz sendo galinha. Talvez eu seria mais feliz sendo uma galinha com um Nobel, mas não se pode ter tudo na vida, né?
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Dieta do cromossomo Y
Esse fim de semana eu passei num apartamento com três homens, o que me permitiu algumas análises e comparações.
Com relação a comida, por exemplo. Ao comprar comida eles pensam principalmente em: quantidade e preço. O que importa é se vai ter bastante comida e se eles vão conseguir pagar o mínimo possível por isso. Chegando em casa, sai aquela panelada de macarrão, todo mundo come bastante e só vai pensar em comida na próxima refeição. É um negócio prático e objetivo. É uma escolha pela lógica. Se macarrão é bom, barato e satisfaz, então macarrão it is, mesmo que por 3 dias seguidos. E não se fala nem pensa mais nisso. Vc está satisfeito, então pra quê comer mais? Claro que eu estou exagerando um pouco e generalizando a lot, mas despindo os detalhes o que sobra é isso.
Já mulher é um bicho mais complicado e eu pude ver isso direitinho quando eu fui fazer supermercado com a Liza, minha roomie, ontem. A gente ficou horas. Analisando cada produto, pensando em cardápios diferentes, escolhendo dezenas de sobremesas.
- "Esse biscoitinho aqui é bom pra comer quando a gente for ver filme".
- "Esse achocolatado é mais grossinho do que aquele lá de casa. É bom pra fazer chocolate quente."
- "Esse molho a gente já comeu a 9 dias atrás. Vamo variar!"
- "Essa batata a gente pode fazer com aquelas ervas que a gente comprou da outra vez, gratinar com um queijo e servir com aquele presunto..."
- "Nossa, esse chocolate é novo! Vamo experimentar?"
- "O que que é isso? Diz fulana que é bom, a gente pode testar!"
No final das contas, a gente já tava salivando pq passamos o supermercado inteiro imaginando a comida e a vontade era de chegar em casa e comer tudo que a gente tinha comprado. Além disso, são 500 coisas diferentes pra experimentar, o que desperta a curiosidade. E se vc compra comidas específicas pro café da manhã, pro lanchinho da manhã, pro almoço, pra fominha de 5h, pro jantar e pra hora de ver filme, vc vai acabar passando o dia inteiro comendo e pensando em comida! Por isso que a gente engorda!
Homem come pra sobreviver, pra matar a fome. Mulher come pra suprir carência, pra experimentar, pra ter uma nova experiência sensorial, pra passar o tempo... A fome vem lá em último lugar!
Antes que me apedrejem, eu sei que isso é mega generalizado e pode ser que se aplique só a mim. Mas foi bom fazer essa análise pq eu pretendo agora começar a seguir mais o cromossomo Y, pra ver se a situação crítica da gordura melhora um pouco!
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Peter Pan
Realmente, quem chamou a vida adulta, né Ju?
Em vias de fazer 25 anos, a minha síndrome de Peter Pan está mais aguçada do que nunca.
E eu tbm tô ficando mais doida do que nunca.
Imaginem vcs que eu fui em uma despedida de um estagiário aqui do lab que vai se mudar pra MArseille na 6a feira. Na festa, vários amigos dele, todo mundo conversando, interagindo. Eis que uma menina, ao perceber meu sotaque pergunta de onde eu sou. Respondo que sou brasileira. E ela continua: "Ah, você é intercambista?".
Num primeiro momento, fiquei toda feliz! Intercambistas são pessoas com menos de 18 anos! E ela me confundiu com uma pessoa de menos de 18 anos! Quer dizer que eu não tenho cara de velha! Eba!
Mas depois que eu analisei a minha alegria eu me dei conta de que ficar feliz quando as pessoas te tomam por uma pessoa mais nova é a coisa mais de velho que tem na vida!!! E aí fiquei arrasada com meus "25-é-quase-30-morro-abaixo"!
P.S: Esse finde tbm fui no show do "rinôçerose", um grupo de eletro-rock muito bom! Foi de graça, lá no Peyrou. Fiz um videozinho, mas não passei pro computador ainda. Hj mais tarde eu posto como foi!
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Ver vendo!
Tava fazendo a minha ronda bloguística diária e encontrei esse post aqui,
que fala sobre como ás vezes, na rotina, na correria, a gente deixar de prestar atenção e realmente deixa de VER as coisas.
Casou total com um sentimento que eu tava tendo hj. Tava sem assunto pra falar aqui no blog, algumas pessoas me perguntando novidades e eu sem nada pra contar, achando tudo uma mesmisse sem fim. Esse sentimento me toma de assalto ás vezes.
Mas aí tem hora que eu páro e realizo*: "Meu Deus! Eu estou na França! É um outro país, num outro continente, separado por um oceano da terra de onde eu vim! Essas pessoas aqui ao meu redor falam uma outra língua e tem uma cultura totalmente diferente da minha! Elas cresceram sob influências completamente distintas das minhas! Essas comidas aqui, e uma pá de outras coisas, não tem na minha terra. OU se tem, custam 1 olho, 4 dentes, 2 dedos e 1 rim! É tudo diferente! E eu só tenho mais 3 meses pra tentar absorver tudo isso e sugar o máximo de coisas boas que eu puder!". Nessas horas eu penso que tenho que começar a fazer mais força pra enxergar melhor, mesmo no meio daquilo que parece ser a minha rotina, mas que na verdade é algo totalemente novo e diferente!
* = odeio essa palavra! "REALIZAR" no sentido de "se aperceber" é um anglicismo podre, fruto de más traduções do inglês pro português, que foram a mãe do mais podre ainda gerundismo! Mas tem hora que ela "cabe" melhor pra descrever esse sentimento de "cair em si", "se dar conta". Ou melhor, eu é que preciso ler mais pra desenvolver meu vocabulário e parar de usar palavras que eu não gosto por mera falta de opção!
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Mais uma da série: CRISES
Já tem 9 meses que eu to aqui, e faltam 3 pra ir embora. Muito pouco tempo.
Antes, eu morria de medo de voltar e estar tudo diferente. Agora eu não tenho mais esse medo, porque tenho CERTEZA que isso vai acontecer. E não adianta falar que está tudo a mesma coisa pq não está! Pode ser que no geral nada tenha mudado muito. Mas o mundo gira o tempo todo, nada fica estático. Pode ser que o que tenha mudado seja um detalhezinho de nada. Mas somados todos os detalhezinhos, de todos os aspectos da minha vida, é uma mudança e tanto. Além disso, eu tbm mudei. Mas isso não me assusta mais (aliás, só um pouquinho...), pq afinal de contas já é um fato.
O que me dá medo agora é que as mudanças tragam incompatibilidades. Não tem problema as pessoas mudarem. O problema é elas mudarem de um jeito que o vc gostava e admirava nela se perca. E o que eu tenho mais medo não é das pessoas mudarem e eu não ter mais compatibilidade com elas, mas sim EU mudar e as pessoas começarem a me achar uma chata!
Eu sei que é viagem da minha cabeça, e que mil pessoas já foram e voltaram e deu tudo certo. Mas tô meio paranóica esses dias.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
DIA DO BIÓLOGO!
Hoje é dia do biólogo! E até os ônibus de BH resolveram lembrar a data! E a Tia Patrícia lembrou de mim! (brigada pela foto e pela lembrança,tia)
Parabéns para nós, esse povo sofrido, mas apaixonado e que tem fé que a vida vai ser melhor! Vai chegar o dia em que seremos reconhecidos, teremos empregos e seremos pagos por ele! Vai chegar o dia em que nós seremos uma classe que se auto-valoriza tbm! Porque se a gente mesmo não se dá a devida importância, fica difícil pro resto do mundo enxergar isso!
Nesse dia as pessoas vão entender que vc não fez medicinia simplesmente pq NÃO queria ser médico e sim BIÓLOGO! E que os médicos, sem os biólogos, não tem nenhuma arma! E que além disso, o planeta e a sobrevivência dele (do ser humano inclusive) depende muito de nós! Vai chegar o dia em que o nosso trabalho vai ser valorizado!
Mas, enquanto esse dia não chega a gente fica feliz só de ter um experimento que dê certo!
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Tema recorrente...
Desculpem a obsessão, mas "ser estrangeiro" é um assunto que acaba sempre aparecendo, pq é (drrr, óbvio!) uma situação que eu nunca vivi antes. E uma que eu nunca quis nem imaginei viver, e por isso nunca gastei fosfato pensando.
Ontem eu fui na Prefecture (que não é a prefeitura, mas tipo o PSIU) resolver um probleminha do meu endereço na carta de Sejour que não estava atualizado, nada de grave. Cheguei lá na hora que abria e já tinha uma fila imensa, marcada "étrangers". A maioria da fila constituída pelos onipresentes muçulmanos do Mahgreb (Marrocos, Argélia, Tunísia e derivados). Já na fila, tinha um clima meio estranho, e mais estranho ainda quando entramos. É difícil explicar, mas é tipo um constrangimento generalizado, uma falta de graça por estar com uma plaquinha de "ESTRANHO" (=étrange, mesma raiz da palavra!) na testa, misturada com medo de ter alguma coisa errada nos seus papéis ou do povo implicar com vc e ser deportado do nada.
Minha senha era a de número 42, então tive bastante tempo pra observar o povo. A maioria, quando era chamado, chegava lá com a cara de apreensão, abraçado na pastinha de documentos e saia alguns minutinhos depois com uma cara de alívio que dava gosto de ver. Alguns casos eram mais drásticos, como um moço cujas filhas e esposa foram barradas de voltar á França. Ele tava desesperado, tadinho. As atendentes era aquela coisa francesa: cara de entojo + educação. Mas parece que conseguiram resolver o problema dele. Algumas pessoas (como eu!) foram no local ou dia errados (eu, como sou estudante, tinha que ter ido no Pole Universitaire, mas ele tá fechado até setembro!) e as atendentes não esperavam nem vc completar a frase pra te dispensarem. Bem grossinhas...
Mas aí foi um moço, com mais cara de tadinho do universo, que me pôs pra pensar naquela situação toda. Lá pelas tantas, a comunidade muçulmana de Montpellier tava toda lá! Homens novos e velhos, mulheres com e sem véu, todo mundo chegava, se cumprimentava e tal. O tadinho não falava francês. Mas aí foi uma moça da comunidade lá ajudar ele. O problema é que ele tinha a carta de sejour, mas ela estava vencida e ele queria renovar. Só que o pedido de renovação deve ser feito 2 meses antes da data final. Muito bem.
Eu sou a pessoa mais em cima do muro do universo, e nesse caso eu não consegui me decidir o que pensar. Pelo lado do tadinho, além dele ser tadinho, eu fiquei revoltada de um serviço que lida com estrangeiros, e onde a maior parte desses estrangeiros falam árabe, não ter um ser humano sequer que fale outra língua que não o francês. Depois, a moça poderia ter sido mais compreensiva, já que estavamos todos naquela situação constrangedora de estranhos no ninho, e falado de uma forma mais tranquila com ele, não como se ele fosse um burro de 7 anos de idade. Mesmo que não tivesse o que ser feito naquela situação.
Mas aí eu comecei a pensar pelo outro lado. Como que um cara, por mais tadinho que seja, que está aqui a mais de um ano com certeza, e que deseja permanecer aqui, não se dá ao trabalho de aprender a língua local? Não acho que a gente tem que abrir mão da nossa cultura ao morar em um país diferente, mas um MÌNIMO de adaptação ao ambiente em que estamos tem que ter, né? Isso é até biologia, e não sociologia! E se vc já conquistou o direito de permanecer naquele país, vc tem que cuidar desse direito! Como que o cara perde a data de renovação de bobeira assim? Aí fica difícil pra moça do balcão ser gentil, pra política do país ser favorável...
Não estou traindo os meus pensando assim, mas acho que essa questão é bem complicada, e rende bastante, né? Espero que vcs não fiquem de saco cheio do assunto, mas é que pra mim dá o que pensar!
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Anti-social?
Depois que o Felipe foi embora, todo mundo tá perguntando se eu tô bem. Eu tô ótima! Na verdade, eu tô bem até demais! Claro que morrendo de saudade DELE, mas não morrendo pelo fato de estar SOZINHA.
E aí eu me pus a pensar... Todo mundo, quando vai pra fora, ou fica amigo de vários brasileiros, de diferentes partes do país, ou então faz vários amigos internacionais com os quais mantêm certo contato e pelos quais sofrem na hora de ir embora, o que divide o coração com a felicidade de voltar pra casa. Eu não.
Conheci pessoas aqui, saí com elas, achei elas legais e acredito que eu tbm fui legal com elas. Mas não criei um vínculo. E não tô achando isso ruim de jeito nenhum. Pelo contrário, estou até gostando bastante de ficar sozinha, fazer as minhas coisinhas quando e como eu quero... Vcs podem falar que é pq tem só uma semana que o Felipe foi embora, e que daqui um tempo eu vou estar morrendo, mas antes dele chegar eu passei um mês sozinha e a cada dia que passava eu curtia mais a minha própria companhia. Será que isso tá errado?
Eu sou uma pessoa super sociável normalmente, mas acho que pra amizade ir além do social tem que ser uma coisa espontânea e tem que ter afinidade! Desde quando eu era mais nova e minha mãe falava pra minha irmã me chamar pra sair quando eu ficava muito entediada em casa que eu tenho pânico de caridade! Não quero ninguém conversando comigo ou me chamando pra sair por dó, pelo fato de eu estar sozinha! Talvez por isso eu acabe criando barreiras que eu não percebo...
Mas a verdade é que eu não tive a oportunidade de evoluir um relacionamento com ninguém aqui. No lab acaba que eu não fico muito parada, então as conversas acabam sendo mais superficiais. Esse negócio de sair correndo atrás de qualquer pessoa que fale português na rua eu acho meio forçado. Acho bacana ter um referencial de brasileiros por aqui, pq acaba que em horas de perrengue pode ser útil ter alguém que fale a mesma língua que vc, mas não acho que pessoa vai ser minha amiga instantânea só pq a gente é compatriota!
Ás vezes eu penso tbm que eu não fiz a minha parte direito. Eu atendi a todos os convites que eu recebi mas não fiz nenhum. Em parte por preguiça e em parte pelo meu pânico de quebrar o código social francês! Como eu não sei direito como as coisas funcionam aqui eu fico com medo de ser muito folgada e sem noção e ser xingada! Por isso que ás vezes eu sou jacu a ponto de nem perguntar num restaurante se eu posso usar o banheiro! Sei lá o que esse povo considera falta de educação ou não! Aí eu acabo ficando na minha. Será que eu devia ter feito mais força?
Eu acho que isso não tá me fazendo sofrer e como ninguém TEM QUE nada nessa vida, acho que vou permanecer assim. Tenho muuuuuuuuuuuitos amigos no Brasil, graças a Deus. Não acho que estou deixando de aproveitar nada aqui e estou gostando muito de tudo!
Ou será que eu tô virando uma doida esquisita?
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Hereditariedade falha
Longe da família, eu tenho percebido em mim cada vez mais traços herdados. Seja no físico, no gosto ou no jeito, seja pela genética ou pela convivência, não tem como. A gente acaba saindo mais parecido com a forma que fez a gente do que imagina, mesmo fazendo força pra fazer diferente.
Na família da minha mãe, corre uma tendência a achar que a comida nunca é suficiente e tentar empurrar goela abaixo das pessoas que te fazem visita a maior quantidade de comida que for possível. Nessa parte, eu estou me saindo melhor que a encomenda. Meus hóspedes que o digam!
Só que eu descobri que eu tenho uma herança falha. Na família da minha mãe tbm rola uma obsessão por limpeza e arrumação. A imagem é tão forte que eu, minha irmã e minha prima, quando pequenas, tínhamos como uma de nossas brincadeiras preferidas lavar banheiro com shampoo Elseve roxo. Uma outra cena que eu não apago nunca da memória é da minha vó, já depois dos 70 anos, agachada com uma agulha tirando a mínima sujeira que fica entre os tacos da tábua corrida do chão da casa dela! Lá em casa, minha mãe tbm seguia a cartilha direitinho, o que fez com que a gente se acostumasse com tudo bem limpo e arrumadinho! Eu fiquei tão mal acostumada que uma vez, ao ir dormir na casa da minha vó, eu fiz ela passar a ferro a cama depois de pronta, pq eu achei que ela não tava tão esticadinha quando a cama que minha mãe arrumava!
Mas a hereditariedade falhou em um ponto. Assim como a lavação de banheiro com Elseve nunca dava certo, eu herdei o gosto por limpeza e arrumação mas não a habilidade para executá-la! Eu sou bagunceira e minha própria bagunça me irrita! Eu gosto das coisas limpas, mas a minha faxina é uma porcaria! E eu juro que tento! O boxe do banheiro então é uma desgraça, porque como a água aqui da França é muito calcárea, parece que ele está sempre sujo! E me irrita demaaaaaais! Essa porcaria de água tbm fez meu cabelo começar a cair muito e o chão fica um mar de cabelos, não importa quantas vezes a gente limpe!
Isso é muita injustiça genética! Vcs não imaginam a aflição que isso me dá! Eu praticamente executo um número de sapateado irlandês "Lord of the Dance" de tanta vontade de dar um piti quando eu detecto essas sujeiras ou as minhas bagunças de roupa, papel, coisinhas, cosméticos, bijuterias, etc!
Meus filhos eu já vou criar num cheiqueirinho pra eles crescerem acostumados com um ambiente não tão asséptico ou então vou programar cursos intensivos de faxina com a minha mãe pra não passar essa falha pra frente!
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Eu não sei nada do mundo...
Essa foto a gente tirou no último domingo da Júlia aqui, na praia de Palavas. Eu tirei a foto pq foi uma coisa que me chamou a atenção. Tava um calor desgraçado e uma família de muçulmanos estava logo ao nosso lado. Os homens de calção, as crianças brincando na areia, algumas mulheres tomando sol de biquini e outras vestidas dos pés á cabeça, com véu e tudo!!! Na foto, uma amiga-prima-cunhada-parente de biquini tenta convencer a outra, completamente vestida, a dar um pulinho no mar. Olhando um pouco mais em volta, vi mais muitas mulheres na mesma situação. Muita dó de enfrentar o calor, ainda mais de frente pro mar, vestida desse jeito.
Confesso que eu só começei a me dar conta da existência da comunidade muçulmana, forte e grande como ela é, depois do 9-11. Eu tava no 3o ano, no Pitágoras, num 5o horário acho que de matemática se não me engano, quando as notícias começaram a pipocar no celulares (ainda relativamente poucos) dos alunos. Minha sala era a única que pegava TV no data show, e logo todos os professores estavam lá olhando pras cenas do World Trade Center em chamas e a gente foi liberado mais cedo. Mais tarde relacionaram o atentado aos fundamentalistas islâmicos e eu achei a coisa toda muito doida: quem é esse povo e qual o problema deles com os EUA? Não que eu tivesse qualquer sentimento de amor pela "América", mas na época eu não entendi muito bem o que eles estavam querendo. Na minha cabeça, eles eram uns gatos pingados pela Arábia, no meio do deserto, criando camelos e rezando voltados pra Meca e só.
Com o tempo, fui percenbendo que o buraco era mais embaixo. Mas depois que eu vim pra cá que eu realmente me dei conta que o buraco é abissalmente mais embaixo! Os muçulmanos dominam a Europa, é só ter olhos pra ver! E não sei se todo mundo se dá conta disso. Num livro que a Júlia me emprestou que chama "O Flanêur" (que eu amei!), onde o cara conta algumas histórias e impressões dele de Paris, ele fala que a cidade deixou de ser branca a muito tempo! Aqui em Montpellier, eu acho que eu nunca peguei o tramway sem um muçulmana característica levando pelo menos um carrinho de bebê! Isso quando não são mais de um carrinho, ou um carrinho e mais dois pequeninos do lado. Daqui uns 20 anos, essas crianças dos carrinhos vão ter crescido. E vão ter se criado na França, que provavelmente vai ser o país onde elas vão trabalhar, votar, viver! E elas vão ser a grande maioria, com certeza, já que o envelhecimento nos países europeus é nítido (apesar da situação ter começado a melhorar um pouco). Eu não falo isso com pavor, achando que vai ser o fim do mundo se os muçulmanos dominarem a Europa. Mas falo isso com o espanto de quem não sabia a dimensão da coisa antes!
E se isso tá acontecendo mesmo, a gente tem que começar a se informar e a entender essa cultura. Coisa que nem eu nem o governo francês parece manjar muito. Essa questão do véu, por exemplo, é uma coisa que eu não consigo formar uma opinião. A Randa, doutoranda tunisiense aqui no lab, é muçulmana e não usa, apesar de rezar (mas não as 5 vezes..), só comer a carne específica que eu esqueci o nome, não ingerir álcool nem se for numa torta de chocolate com uma gotinha de licor. Uma pesquisadora lá da Tunísia tbm que veio visitar o laboratório usa. É solteira, cientista e usa porque quer. Da mesma forma que eu uso um cruxifixo se eu quiser. As meninas são proibidas aqui na França de usar o véu na escola. Uma muçulmana tbm teve seu pedido de naturalização negado, mesmo após anos e anos de vida na França, por usar o véu, pois a França se diz um Estado laico e que preza pela liberdade e igualdade. O véu seria um símbolo contrário a tudo isso. Na rua, além das tradicionais, gordinhas e com lenços e roupas bem típicas, tem algumas mocinhas chiquérrimas, de salto agulha, jeans skinny, que usam um lenço Hermés ou Luis Vuitton na cabeça enquanto compram lingerie fio dental. Seriam elas reprimidas?
Quando eu veja a coitadinha de véu derretendo na praia, enquanto os maridos se bronzeaim de nadam no mar de shortinho, eu fico indignada. Me parece um machismo e uma repressão clara e certa. Mas será que proibir o véu não é proibir tbm um identidade cultural, pra quem tá afim de expressar? Mas será que essa "liberdade" de usar o véu se quiser é mesmo uma liberdade? Quando eu começo a pensar nisso, fico um pouco confusa. Aliás, MUITO confusa.
Nessas horas eu vejo que eu não sei NADA do mundo. E o pior que com as Olimpíadas eu lembro da China bombando na economia! Vem aí mais gente que eu não entendo. SOCORRO!!!
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Último post da crise ou Não há lugar melhor que BH
Depois desse eu juro que c'est fini com essa inconha!
Estou superbem resolvida, graças a todos os queridos que me deram palavras de apoio e a muita bateção de cabeça!
Já acho que sou super brasileira, super mineira e que serei a fundadora do BH-way-of-life que ficará para a posteridade!
Pra finalizar, eu queria só compartilhar um momento muito "patriótico" (essa palavra eu acho que é pra Pátria, mas qual seria a palavra pra caracterizar o amor pela cidade? Cidadótico?) da minha parte: eu fico muito emocionada, de quase chorar, com aquela música do César Menotti e Fabiano que fala de BH!
Acho sertanejo ótimo pra cantar no banheiro ou no carro (via ExtraFM), sempre vindo de dentro, com muito sofrimento! Já fui em show e sei cantar as músicas. Mas eu não sou fãaaa de sertanejo. Não ouço em casa, não compro CD nem baixo da Internet. Então não é o meu gosto por uma "viola xonada" que me emociona. Até porque essa música tem uma levada meio axé.
Eu acho que é pq eu vejo muitas pessoas que não gostam de BH, em vários aspectos. Gente que acha que é uma roça, que não tem nada pra fazer, que não tem vida cultural, , ou até que é grande demais, que é violenta, que o trânsito é burro. Gente que adoraria e ficaria mais feliz em morar no Rio, São Paulo, no exterior ou até no interior. Não sei quanto a vcs, mas eu escuto muito esse discurso, vindo de todos os lados. E eu fico arrasada, pq eu ADORO BH! Acho linda, acho do tamanho certo, acho que têm problemas (lógico!) mas que tem lugar que tá pior e acho mais ainda que meu umbigo tá enterrado aqui, então eu sinto um ímpeto de amá-la, no matter what!
E vendo esse tanto de gente reclamando, eu me sentia só e doida por gostar dessa cidade e ninguém mais! Mas aí os irmãos gordinhos vieram me fazer companhia! E eu fiquei lisongeada pq eles nem são mineiros ("Eu nasci la em São Paulo e desci pro Paranáaaaa") e gostam de BH mesmo assim. Tá bom que eles gostam pq foi aqui que eles conseguiram fazer sucesso e ganhar dinheiro e que provavelmente a música foi encomendada e paga, mas eu não ligo! E continuo ficando com os olhos marejados toda vez que eu escuto:
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
A saga do feijão ou Cultivando a brasilidade
Depois de todo o conflito iniciado pelo cassoulet maldito que culminou com o movimento pró-brasilidade, resolvi que tinha que comer um feijão pra testar!
Aliás, o desapego ao feijão é uma das minhas características anti-brasilidade que começaram a me incomodar. Todo mundo que mora fora sente falta de feijão e geralmente é a primeira coisa que pedem pro povo que vem visitar (eu peço pão de queijo! momento feliz da mineiridade urbana se revelando!). Eu não...
E não é que eu não goste de feijão. Eu amo feijão! E a Lú faz um feijão tão bom lá em casa que ele nem pertence mais ao filo dos feijões normais, já subiu de patamar! E do feijão dela eu sinto falta.
Mas acho que, devido a minha curiosidade gastrônomica que me faz querer, pelo menos por esse ano, experimentar as coisas que eu só vou ter a oportunidade de comer aqui, eu acabei não me ligando muito no feijão (e adquirindo algumas arrobas extras, diga-se de passagem).
Mas aí a gente viu esse feijão enlatado aí embaixo no Monoprix, e ele até tinha uma carinha de feijão brasileiro. "Refogando com um bacon, um alho amassado e uma folhinha de louro, se perigar fica até bom!", disse Júlia Mesquita. O louro eu esqueci, mas o resto todo eu fiz! O caldo meio que custou pra engrossar e ficou numa cor meio estranha, meio clara. Acho que faltou "amor" (sázon!)

Pra acompanhar, eu decidi fazer o meu prato do dia a dia mais favorito de todos! Arroz, feijão, carne moída e ovo frito! Pra mim, ganha do quase unânime arrorfeijãobifebatatafrita.
O arroz, antes a gente tava comprando aqueles de saquinho que vc só ferve e pronto. Mas resolvemos comprar um arroz Thai, que eles mandam fazer igual macarrão, fervendo um litro de água, jogando la dentro e depois escorrendo. Mas fiz ele à lá bresilienne, refogando cebola, cobrindo com um dedinho de água e tal! Não ficou soltinho-da-vovó, mas não empapou, o que já é uma vitória.
A carne moída foi gerada a partir da desconstrução de dois hamburgueres. Não é perfeito, mas é o melhor que tá tendo!

O ovo frito! Quem é que inventou a expressão "não sabe nem fritar um ovo!", como a caracterização do absurdo do não-talento culinário da pessoa em questão? Fritar ovo é a parte mais difícil! É igual falar "não sabe nem integrar uma equação!" ao invés de falar "não sabe nem quanto é dois mais dois!", pra caracterizar a burrice de alguém!

No final das contas, dada a improvisação utilizada na confecção do prato, ele até que deu certo! E ficou bom, viu? Engraçado que eu fiquei até com vontade de chorar! Era como se eu tivesse no Brasil de novo! É o poder do arroz com feijão!
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Patriotismo Roots
Esses dias eu fiquei pensando muito em uma coisa: eu queria ser mais brasileira! Ou pelo menos ter mais cara de.
Muitas pessoas (do Brasil!) me falam que eu tenho cara de francesa. Ainda mais quando eu cortei a franja. Mas o povo aqui não se engana não. E eu nem preciso abrir a boca, pq o sotaque ás vezes entrega, e eles já percebem que eu não sou francesa. Não sei porquê. E no começo eu ficava neurada com isso! Pq eu não posso me passar por francesa?
Mas depois eu percebi que eles sabem que eu não sou francesa, mas não tem nem a menor idéia de onde que eu sou! Eles nem chutam, pq o Felipe todo mundo chuta que ele é italiano. E aí eu fiquei triste, pq eu sou muito ufanista pra não ser notada como brasileira!
E aí me deu crise de identidade! E aí além de ficar neurada por não parecer nada fora do Brasil, eu comecei a viajar por não parecer nada DENTRO do Brasil. E aí a loucura deu três voltas, foi jogar pedra de costas na lua e um abraço!
Essa coisa de ser mineira, nascida, crescida e (se Deus quiser) morrida em Belo Horizonte é uma coisa meio estranha. Primeiro pq é cidade grande, mas não é São Paulo. É Minas, mas não é interior roots! Fiquei viajando que BH não tem nada de muito típico. Quando o povo pergunta aqui do Brasil, a imagem que eles tem é de Rio, Bahia, Amazônia, Pantanal. E tá ok, pq essa é a imagem mesmo passsada pros gringos. Mas nem fazer um romancezinho, falando de fazenda, cachoeira, fogão a lenha e doce de tacho eu posso fazer, pq é mentira! Eu sou mineira, mas eu não tenho isso... Eu sou uma mineira urbana! E que bicho é esse, Senhor?
A Júlia ainda tentou me animar, falando que a gente é uma geração especial, pq como BH é uma cidade ainda nova, não existem muitas pessoas deveras NASCIDAS em BH. E que a gente era roots por ter nascido e que a gente ia inaugurar a linhagem! E que tbm o jeito mineiro de falar de BH é diferente do sotaque de outras partes e tal.
Sei lá se me convenceu, mas como diz o poema-lema de vida, "se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não seria uma solução". E viva a mineiridade urbana!
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Oncontô? Proncovô? Quemcosô?
Aqui no laboratório eu muito bem tratada! Graças a Deus não tenho nada a reclamar. Mas é inevitável sentir , ás vezes e de algumas pessoas, a emissão da mensagem: "Você não é daqui!".
E geralmente não é de uma forma agressiva ou sem educação. Eu penso que é da mesma forma que eu trataria um ET que chegasse na minha casa, ou um índio!
Isso aparece muitas vezes no tipo de pergunta que eles me fazem ("Vc já experimentou vinho?", "Já ouviu falar da culinária francesa?") e na forma de falar, como se vc fosse surda, ou tivesse 5 anos de idade. Ás vezes isso transparece uma curiosidade, o que não me incomoda de jeito nenhum. Mas tem dias, não sei se efetivamente devido a alguma atitude deles ou a um mau humor da minha parte, ás vezes eu sinto um pouquinho de preconceito. Mas não do tipo discriminação . É mais como se eles estivesse fazendo uma grande caridade em me receber. Eu, a pobrezinha da menina do 3o mundo que quer ser cientista, mas coitada, não tem oportunidades dentro do seu país miserável. Que tbm não deixa de ser um pouco verdade, e talvez justamente por isso que me incomoda tanto!
Ontem aconteceu um episódio que me fez pensar nisso. Aqui, cada um tem seu jogo de pipetas pra chamar de seu. Menos eu. Eu gosto de entender que é pq eu vou ficar pouco tempo e não seria necessário investir nisso. Enfim, eu sempre pego de outras pessoas, avisando-as antes, naturalmente. Cada um aqui tem a sua bancada tbm. Mês passado me mudaram de lugar, para uma bancada menor, pra uma menina que entrou pra ser técnica ficar com a minha. Gosto de pensar do mesmo jeito que eu falei: é pq eu vou ficar pouco tempo e eles tem que dar preferência pra quem vai se instalar mesmo aqui. Aí eu fui pegar a pipeta de uma moça lá, como eu preciso fazer para sobreviver aqui! Nisso, uma outra moça, que sempre foi uma gracinha comigo, chegou pra mim com uma vozinha da SuperNanny dando lições para as criancinhas mal-criadas e disse: "Aqui a gente não pega as coisas dos outros assim não!". Eu tentei explicar pra ela a questão toda das pipetas e ela falou mais algumas coisas, mas eu fiquei com tanta raiva que nem escutei direito! Fiquei muito mau humorada o resto do dia! Quando vc acha que realmente já está ambientada no lugar, sempre tem algo pra te dizer que você não pertence a este lugar!
Essa preocupação da não-pertencência se alia a outra que, aparece com a perspectiva da volta. Outro dia a gente encontrou uma carioca surtada na rua, que vendo que a gente falava português ficou querendo ser nossa melhor amiga. Ela contou que ela mora aqui a 8 anos, e a 1 ano o marido dela morreu. E ela tá aqui ainda, passando perrengue, desempregada. A gente logo perguntou pq ela não voltava pro Brasil. Ela meio que enrolou a resposta, mas o que ficou claro pra mim foi que ela tinha feito tanto esforço pra ser daqui, falar bem a língua, se adaptar ao estilo de vida, que ela não conseguia mais se imaginar no Brasil. Mas ao mesmo tempo ela não se sentia totalmente acolhida aqui. Nem lá nem cá, vc passa a pertencer a um vácuo!
Claro que eu sei que 1 ano é coisa pouca, e todo mundo me fala que nada mudou, que tá tudo exatamente a mesma coisa. Mas é mentira, pq tudo muda o tempo todo, inclusive eu! Não tem aquilo de que um homem nunca entra 2x no mesmo rio, pq nem ele nem o rio são os mesmos? Aí me dá muito medinho de pensar nessa volta.
E ontem aconteceu algo que me deu mais medo ainda! Fomos num restaurante com a Júlia e eu pedi um Cassoulet, que é um prato típico daqui, com feijão branco. O tal do feijão, que eu não como á 7 meses, caiu igual uma granada no meu estômago e eu passei mal demais! Tive até que tomar Sal de Andrews, e olha que eu não tomo remédio nem quando estou a beira da morte! Ficou aquela queimação típica de feijão!
A constatação de que meu estômago tá virando um gringo fresco pra comida tá me dando pânico! Será que eu vou ter diarréia do viajante quando eu chegar? Acho isso o cúmulo do podre! Afinal de contas, sou mineira criada a tropeiro com muito torresmo! Se meu organismo não aceitar mais isso é como se eu perdesse a identidade!!! Socorro!
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Amiiiiiiiigo

Saiu na Nature do dia 10!!! É bom ver que realmente não estamos sós!!!
"I'll take one 'eureka' please
Zachary Lippman Zachary Lippman is a postdoctoral fellow at the Hebrew University of Jerusalem's faculty of agriculture.
Looking for that eureka moment.
I haven't exclaimed "eureka!" in a long time. In fact, now that I think about it, I never have. Yet I know those moments exist, because I've read about them in books such as James Watson's The Double Helix, the story of how the structure of DNA was discovered. And I've been privy to conversations with a few seasoned colleagues in which they recounted their biggest discoveries.
So why haven't I had a eureka moment, I wonder? Is it possible that my projects hold little promise for major discoveries? Or maybe it's because I'm too young, and eureka moments only arrive when researchers are more scientifically mature. I know I have a eureka moment in me. I know it because I'm capable of equally emotional revelations — like recently, when I used a few preferred expletives on hearing that my manuscript had been rejected in less than four hours.
I could use a eureka moment, but I know that science isn't necessarily about expecting or striving for one. I look at my research as a marathon, with experimental ups and downs, unexpected right and left turns, and a continuous process of learning. That may sound trite, but it's a mindset that helped me survive the rigours of being a graduate student, a postdoc and, I hope soon, a professor. Still, some day it would be nice to say eureka, even in a low whisper."
terça-feira, 8 de julho de 2008
Agora já era MESMO...
Hoje parece que tudo o que eu fiz aqui no laboratório até agora deu realmente errado...
Durante esse tempo de suspense, quando as coisas começaram a parecer meio feias, mas quando eu ainda não tinha certeza, eu sofri demais, ficava desesperada. Engraçado que foi passando, e hoje, quando eu tive a confirmação quase de 100% de que deu errado mesmo, eu fiquei bem! Bem até demais!
Não sei se o sofrimento anterior me deixou já preparada para o pior, mas o fato é que eu fiquei até um pouco aliviada. Esse vai-num-vai que é ruim. Quando as coisas se definem, por pior que sejam, pelo menos vc fica livre pra seguir em frente, mudar, fazer outra coisa.
Além disso, eu tive uma sensação estranha que me lembrou muito de um filme que eu vi, com o Al Pacino e o Mathew McConaughey, que conta a história de uma cara que mexe com apostas de futebol americano (em inglês o filme chama "Two for the money", não achei o nome em português). Tem um hora em que o personagem do Al Pacino fala que os viciados em apostas, esses que vão apostando cada vez mais alto até perderem tudo, na verdade apostam para perder. Ele fala que a sensação de colocar todas as suas fichas em uma coisa, perder tudo e ver que, apesar da tragédia, vc continua vivo e respirando é uma coisa sensacional. É uma sensação de indestrutibilidade. Vc perde tudo mais continua lá! E é atrás disso que os apostadores compulsivos vão.
Depois que a minha "aposta" aqui deu errado, eu tive um pouco dessa sensação. Era pra eu estar desesperada, mas eu me dei conta de que ninguém morreu. Tenho uma ótima família, ótimos amigos, tô vivendo uma vida ótima na França, apesar dos perrengues... O meu doutorado é muito importante, mas não é a única coisa da minha vida. E mesmo que fosse, ele ainda não está perdido. Eu vou ter que ralar um pouco mais, pra tentar recuperar esse tempo, mas ainda dá pra fazer muita coisa. No final das contas, eu sobrevivi! E por pior que esteja a situação, como tantos perrengues que eu já passei até agora, no final eu continuo lá! E as coisas passam... Estranho pensar assim, né? Mas antes isso do que o desespero!



